Reflexões Semanais

08/10/2017

Por vezes, encontramo-nos invadidos por uma grande sensação de vazio e incompletude.

Hiato em nós mesmos.

Amiúde projetamos o preenchimento dessa lacuna naquilo que nos rodeia. Tentativa valida, porem, muitas vezes, vã.

Procuraremos insaciavelmente e a lacuna permanecerá. 

Certamente não devemos nos deixar paralisar diante dessa sensação, fecharmo-nos em nós mesmos simplesmente pode perpetuar a vaga sensação do preenchimento.

Sim, devemos lidar com esse sentimento inevitável, todavia, sem deixar que o curare etereamente emanado pelo  vazio em nós nos devore autofagicamente. 

O olhar de que de nós mesmos se projeta e se reflete no Outro pode propiciar o vislumbramento de nuances que a sombra de nós mesmos acaba por eclipsar. 

24/09/2017

Setembro Amarelo é uma campanha mundial que ocorre em todo o mês de setembro, para prevenção de suicídio No Brasil foi iniciada em 2014. A ideia é promover eventos que abram espaço para debates sobre suicídio, e divulgar o tema alertando a população sobre a importância de sua discussão.

Deixo, inicialmente, como reflexão:

“O suicida não é covarde, apenas não encontrou outro modo para matar uma dor que o matava todos os dias.” Sean Wilhelm.

Nesses quase 17 anos de exercício da psiquiatria, deparei-me com inúmeras situações onde havia potencial risco de suicídio. Tais situações sempre me mobilizaram imensamente enquanto profissional e como sujeito. 

Costumeiramente temos que envolver a família e promover uma situação que mitigue o risco de suicídio. Trata-se de situação única que demanda uma ação assertiva e imediata. 

Há potenciais laços estigmatizantes onde coloca o iminente suicida como aquele que “quer chamar a atenção”ou “ como quem quer se matar se mata”- chavões esses altamente equivocados e geradores de danos, muitas vezes, irreparáveis. 

Temos que escutar atentamente toda a queixa e com toda a seriedade devemos acolher o sofrimento como verdadeiro e indubitável. 

Há inúmeros casos de recorrentes tentativas de suicídio onde os familiares e por vezes, até, o profissional passam a conceber aquele ato como mais uma tentativa infrutífera, Ledo engano, nesses casos, o risco se torna ainda maior e a presença de olhares estigmatizados e cansados não devem ser obnubilados pela real gravidade da situação. 

Em fato, devemos acolher o paciente e  a família, todos sofrem com essa situação potencialmente letal. Temos, portanto, o dever do exercício do papel médico que, alem de avaliar a gravidade da situação, deve entender o sofrimento do sujeito que ali escuta e de toda a estrutura social que o circunda. 

Com extrema seriedade devemos , portanto, devotarmo-nos a  acolher a demanda do paciente e aos questionamentos dos familiares. 

Devemos traçar metas reais e objetivas, sempre almejando a coletividade que circunda o paciente, que dêem continência ao sofrimento daquele que vem, amiúde, nos procurar. 

Diria que escutar sempre com seriedade, empatia e compaixão pode ser essencial para que possamos lidar com tais críticas situações. 

17/09/2017

A liberdade nos seduz.

Padecemos da lábil sensação de que , no exercício da escolha, nos regozijaremos na plenitude. 

Não há e nunca haverá completude de desejo pois sempre restará algo que deixamos de escolher. Todo sim implica em inúmeros nãos e vice-versa. 

Por melhor e mais aprazível que seja a opção feita deixaremos de consumar uma enormidade de voláteis quereres. 

Deste modo, a insaciabilidade de nossas intenções , em algum momento, perecerá num duradouro ou transitório vácuo do desejo.

Não obstante, somos invadidos por infindáveis estímulos que nos prometem a possibilidade de alcançar algo que não possuímos ou deveríamos desejar ter. 

A liberdade deve nos seduzir, em fato. 

Não se trata de deixarmos de escolher pelo temor da frustração e do sofrimento de um querer que nos traga dor, todavia, de entendermos que diante do caráter sempre parcial daquilo que desejamos nos confrontaremos com nós mesmos. Pois aquilo que falta está em nós mesmos.

Trata-se , com efeito, do aprendizado de como lidarmos com o caráter parcial de nossas intenções e, essencialmente, saber quando devemos voltar o olhar para nós mesmos. Não se trata de vendarmos nossos olhos ao mundo, mas sim, com a aquisição da  consciência daquilo que em nós falta possamos compreender o mundo em outras perspectivas.

10/09/2017

02/09/2017

A Voracidade do Tempo

 

Sentimo-nos continuamente afligidos pela angústia de muito fazermos e, ao mesmo tempo, percebemos que nada realizamos. 

O pragmatismo que nos absorve tem varias faces: aquela do trabalho, do cuidar dos filhos, de fazer exercícios físicos e de pagar nossas contas e impostos. Perdemo-nos em nós mesmos, e acreditamos que isso nos basta.

Vazio inexorável e dilacerante que desconstrói a unidade e subjetividade. 

Nascemos com a vocação de sermos seres unos, todavia, perdemo-nos diante de nossas neuroses. 

Lutamos vorazmente pela felicidade, quase que imposta pelo senso comum, e frustamo-nos diante de qualquer vacilo que a vida nos traz.

Acreditamos que se vivermos cumprindo esse “script" das cenas diárias, que retratam a coletividade, que nos entregaremos ao todo. 

Todavia, esquecemo-nos que o Todo está em nós.

Há a necessidade imperiosa de lidar e aceitar o vazio para que possamos aceitar a nós mesmos.

Acredito no “ócio criativo” - inequivocamente - aquele que nos faz entrar em contato com aquilo que achamos que havíamos perdido. Encontramo-nos em nós mesmos.